Página Literária - A arte de fazer versos


Raro, nos dias atuais, encontrar-se alguém que conheça, de fato, as normas da Arte Poética. Com efeito, hoje, muitos daqueles que se dizem "poetas" nada sabem do Sublime Ofício e seriam, certamente, em época mais culta, duramente ridicularizados. Neste pequeno texto, não anseio ensinar tal mister, até porque, da arte do verso, só uma parte se pode ensinar completamente: aquela que depende mais diretamente da gramática. Pretendo, tão-somente, fazer despertar nos neófitos o senso crítico, a mostrar que poesia não é somente iniciar o verso com letra maiúscula e pôr-lhe a rima no fim. A contrário, há normas e regras a se seguir, não se olvidando, obviamente, do talento do candidato a poeta, requisito nato que não se pode ensinar. Aqui, servindo-me de um pequeno livro de Osório Duque-Estrada, "A Arte de Fazer Versos", edição de 1914, tentarei passar uma breve noção da Sublime Arte.

1. RITMO

Antes de entrarmos no estudo dos três elementos constitutivos do verso (número de sílabas, cesura e rima), digamos alguma coisa acerca do ritmo.

Submetido como é o verso a uma medida certa e rigorosa, resultam das pausas determinadas pelas sílabas fortes várias cadências, mais ou menos regulares, que nos transmitem uma impressão agradável e musical. É isso que se chama ritmo.
Um exemplo dará a noção que procuramos indicar. Seja o verso de Camões:

"Porém já cinco sóis eram passados."

Este verso (como todo heróico ou decassílabo) está sujeito a diversas pausas musicais que podem variar de local, com exceção da sexta sílaba, que é obrigatória e imutável. Há nele três cadências distintas, que podem ser assim destacadas:

Porém / já cinco sóis / eram passa / dos (a contagem limita-se à última sílaba tônica)

O conjunto dessas três cadências, produzindo uma espécie de balanço e de ondulação musical na pronúncia do verso, constituem o ritmo.
Basta deslocar o acento obrigatório da sexta sílaba, para que o ritmo desapareça, perdendo o verso toda sua sonoridade. Ex.:

"Cinco sóis, porém, passados já eram."

Neste caso, embora possua o verso o mesmo número de pés, desapareceu por completo a impressão sonora que a sua recitação deixava no ouvido; a prosódia tornou-se embaraçosa e incerta; perdeu-se o efeito musical do ritmo e, com ele, a razão de ser do verso.

2. CONTAGEM DAS SÍLABAS

Sabido que o total das sílabas poéticas (pés) deve ser igual para cada espécie de verso, é preciso aprender a maneira pela qual se procede à contagem dessas sílabas, uma vez que, nem sempre, corresponde o número delas ao mesmo número de sílabas gramaticais.
Temos em português doze espécies de versos, que se medem desde uma até doze sílabas.
Para ensinar-se a contagem poética, deve-se dizer que esta se faz de uma única maneira: deixando-se guiar pelo ouvido e não contando senão as sílabas que entram naturalmente na medida do verso, com eliminação completa de todas as outras.
Um exemplo típico indicará claramente como diferem as duas operações. Seja o verso de Luiz Delfino:

"Se a segunda casasse, eu mesmo iria à igreja."

Há neste alexandrino do grande poeta nada menos que dezoito sílabas gramaticais, ao passo que as métricas não passam de doze. Expelidas as sílabas intrusas, ficarão apenas as doze sílabas métricas do alexandrino.
Tal operação está, porém, subordinada a alguns preceitos e a vários fenômenos de linguagem. A sílaba muda do final do verso não deve ser contada, porque a medida musical não vai além da predominante ou tônica da última palavra. Já é uma de menos, em favor da contagem métrica.
E as outras?
O principal acidente que determina a redução de outras sílabas no meio do verso é a elisão.

2.1 ELISÃO

Elisão é o fenômeno lingüístico pelo qual se faz a fusão de duas vogais em um som exclusivo, formando-se assim uma só sílaba, como nos ditongos.
Em conseqüência da elisão, a vogal surda que finaliza uma palavra absorve-se na que inicia a palavra seguinte. Ex.: triste e cansado, que se lê: trist'e cansado.
A absorção pode ser de duas vogais em uma terceira, reduzindo-se, assim, três sílabas em uma só. Ex.: triste e abatido, que se lê: trist'abatido.
Quando é forte a vogal terminativa da primeira palavra, a elisão deve ser condenada.

3. CESURA

Cesura é uma pausa longa da voz requerida por uma sílaba tônica mais acentuada que as outras tônicas do verso. Tem a sua maior importância no alexandrino (verso de doze sílabas), mas existe igualmente em versos de outras espécies.

Exemplos:

O'-al-mas-que-vi-veis/pu-ras-i-ma-cu-la-das
O-can-to-das-a-/ves-oa-ro-ma-da-flor
No-co-ra-ção/da-mu-lher

Variável nos de cinco, seis e sete, a cesura torna-se fixa nos versos de oito, nove, dez, onze e doze sílabas, caindo na quarta nos de oito, na quinta nos de onze e na sexta nos demais.

4. RIMA

É o terceiro dos três elementos constitutivos do verso.
A rima é a volta regular de um mesmo som no fim de versos diferentes, tendo por objeto, além de transmitir ao ouvido uma impressão agradável, assinalar com energia a terminação do ritmo do verso.

4.1 REQUISITOS DA RIMA

Nem todas as rimas são iguais. há rimas vulgares, boas e ricas - o que não se pode dizer que as últimas possam ser, algumas vezes, más e até mesmo péssimas.
Em geral, devem ser preferidas as rimas de categorias gramaticais diferentes, isto é, as que não resultam da combinação de substantivos com substantivos, verbos com verbos, adjetivos com adjetivos etc.
Outro, no entanto, é o critério adotado para a classificação das rimas em vulgares e ricas:
Rimas vulgares (embora boas, por serem obtidas de palavras não similares) são as que oferecem apenas uma identidade de som da vogal predominante, e não da articulação inteira da sílaba tônica. Representam assim um mínimo de rima, suficiente para satisfazer às exigências do ouvido. Ex.: amar e luar; revel e corsel; mata e desata.
Rimas ricas são as que, além da identidade do som da vogal, oferecem também a de toda a articulação da sílaba sonora, aparecendo a vogal precedida de uma consoante também idêntica, chamada consoante de apóio. Ex.: estilhaço e palhaço; imprudente e acidente; retalha e batalha; dizimar e patamar.
Para que a rima seja considerada boa, não é preciso que seja rica, basta que reúna algumas qualidades de ordem acústica e várias outras de natureza intelectual, as mais raras e denunciadoras dos verdadeiros poetas.
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Bibliografia:

DUQUE-ESTRADA, Osório. A Arte de Fazer Versos. Rio de Janeiro: Francisco Alves & Cia, 1914.




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